Vivemos uma época curiosa. Nunca tivemos tanto acesso à informação, à tecnologia e ao conhecimento. Mesmo assim, parece que estamos cada vez mais desconfiados e, principalmente, interessados em tentar descobrir o que existe por trás da vida e das escolhas dos outros.
A desconfiança acabou entrando no nosso cotidiano de uma maneira quase natural.
Quando alguém emagrece bastante, logo aparece alguém perguntando se está usando algum medicamento. Se uma pessoa escreve um bom texto, surge a dúvida se foi feito com inteligência artificial. Uma fotografia ficou muito bonita? Deve ter sido editada. Alguém melhorou de vida? Querem saber de onde veio o dinheiro. Cresceu profissionalmente? Alguém deve ter ajudado.
E por aí vai.
Parece que ficou difícil simplesmente reconhecer que alguém conseguiu alguma coisa sem procurar imediatamente uma explicação por trás daquela conquista.
Mas será que precisamos mesmo saber?
Se uma pessoa emagreceu com acompanhamento médico e utilizando algum dos medicamentos que hoje existem para isso, é uma decisão dela e do profissional que a acompanha. Se outra preferiu mudar a alimentação, praticar exercícios ou seguir outro caminho, também é uma decisão pessoal.
O mesmo vale para a inteligência artificial.
Ela está aí, faz parte do nosso tempo e será cada vez mais utilizada. Algumas pessoas usam para pesquisar, organizar ideias, revisar um texto ou ajudar na criação de alguma coisa. Outras preferem fazer tudo sem esse auxílio. Não vejo problema em nenhuma das duas situações.
O que talvez esteja errado é achar que precisamos descobrir qual caminho cada pessoa escolheu para depois decidir se aquilo tem ou não valor.
Nem toda escolha precisa da nossa opinião.
As ferramentas sempre mudaram. Quando surgiu a calculadora, ela não acabou com a matemática. O computador não acabou com a inteligência das pessoas. A fotografia digital não acabou com o fotógrafo e os programas de edição não eliminaram a criatividade.
Com a inteligência artificial não será diferente.
Da mesma forma acontece com a medicina. Ela evolui justamente para oferecer novas possibilidades. Se existem tratamentos que podem ajudar alguém e essa pessoa, juntamente com seu médico, entende que aquele é o melhor caminho, não vejo por que isso deveria ser motivo de julgamento ou de especulação.
A questão, portanto, não é defender ou criticar quem utiliza determinada ferramenta.
É perceber que estamos criando o hábito de desconfiar de tudo.
Existe uma diferença muito grande entre ter senso crítico e passar a vida procurando alguma coisa para desmascarar. É claro que devemos ter prudência. Nem tudo que vemos é verdadeiro e nem tudo que ouvimos merece crédito. Mas isso é bem diferente de olhar para qualquer conquista e imaginar imediatamente que existe alguma coisa escondida.
Esse comportamento vai desgastando as relações.
Hoje queremos saber quem emagreceu e como emagreceu. Quem ganhou dinheiro e como conseguiu. Quem fez algum procedimento estético. Quem tomou medicamento. Quem recebeu ajuda. Quem escreveu sozinho. Quem utilizou inteligência artificial. Quem editou uma fotografia.
Queremos conhecer os bastidores da vida das pessoas como se elas tivessem obrigação de nos apresentar uma explicação para aquilo que fazem.
E não têm.
Existem decisões que pertencem somente a quem as toma.
Naturalmente, quando nossas atitudes envolvem outras pessoas, instituições, dinheiro público ou responsabilidades coletivas, transparência é fundamental. Nesses casos existe, sim, o dever de explicar e prestar contas.
Mas não podemos transportar essa mesma lógica para a vida particular das pessoas.
Talvez seja necessário reaprender algo bastante simples: nem tudo precisa ser explicado e nós também não precisamos saber de tudo.
É possível admirar uma conquista sem investigar como ela aconteceu. É possível reconhecer um bom trabalho sem tentar descobrir imediatamente quais ferramentas foram utilizadas. E também é possível respeitar que alguém tenha escolhido um caminho diferente daquele que escolheríamos.
A tecnologia vai continuar avançando. A medicina também. Daqui a alguns anos estaremos utilizando ferramentas que hoje sequer conseguimos imaginar. Muitas coisas que atualmente provocam discussão provavelmente serão absolutamente normais no futuro.
Sempre aconteceu assim.
Por isso, acredito que o grande desafio não esteja em descobrir quem usa inteligência artificial, quem utiliza determinado medicamento ou quem recorre a qualquer outra ferramenta moderna.
O desafio está em aprender a conviver com essas mudanças sem transformar nossas relações em uma permanente investigação sobre a vida dos outros.
Ferramentas não retiram necessariamente o mérito de ninguém. Muitas vezes elas apenas ajudam uma pessoa a chegar onde queria chegar.
No final, talvez estejamos realmente vivendo sobre esse fio da navalha entre a autenticidade e a desconfiança.
Precisamos do senso crítico, sem dúvida. Mas precisamos também entender que existe um limite entre aquilo que é nossa preocupação e aquilo que pertence exclusivamente à vida do outro.
E talvez a palavra que esteja faltando seja justamente respeito.
Respeito pelas escolhas, pelos caminhos diferentes e também pela privacidade.
Antes de tentar descobrir como alguém conseguiu alguma coisa, talvez possamos simplesmente reconhecer que conseguiu. Antes de criar uma teoria sobre a vida de uma pessoa, vale lembrar que conhecemos apenas uma pequena parte da história dela.
E há situações em que simplesmente não perguntar também é uma forma de respeito.
Confiar não significa acreditar em tudo ou ser ingênuo. Significa apenas entender que não precisamos viver procurando explicações para cada decisão tomada pelas pessoas ao nosso redor.
Em um tempo em que todos parecem querer saber tudo sobre todos, talvez seja importante recuperar um princípio muito simples de convivência:
a vida do outro pertence ao outro.
Podemos ter nossas opiniões, nossas escolhas e até nossas dúvidas. Mas nem tudo precisa ser investigado, explicado ou julgado.
Às vezes, basta respeitar.
Fraternalmente,
Arlindo Batista Chapeta
Presidente da Academia Maçônica de Letras da Baixada Santista