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O Apostolado e o Grande Oriente do Brasil

Arlindo Chapeta
O Apostolado e o Grande Oriente do Brasil

Rivais ou expressões de um mesmo momento histórico?

A história raramente é construída por narrativas simples. Quanto mais importante é um período, maiores são as paixões, os conflitos políticos e as interpretações que surgem ao longo do tempo. A Independência do Brasil e os acontecimentos que cercaram o ano de 1822 talvez sejam o maior exemplo disso.

Nos últimos anos, alguns estudos passaram a apresentar o Apostolado como uma organização antimaçônica criada para combater o Grande Oriente do Brasil. Essa interpretação faz parte do debate historiográfico, mas merece ser analisada com serenidade, sobretudo quando observamos quem eram seus fundadores e qual era o contexto político da época.

Um aspecto frequentemente esquecido é que o Apostolado foi fundado por maçons, apenas duas semanas antes da criação do Grande Oriente do Brasil. José Bonifácio de Andrada e Silva, Dom Pedro e diversas das principais lideranças do movimento da Independência integravam ambas as instituições. Não existiam dois grupos completamente distintos. Em grande medida, eram os mesmos homens reunidos em organizações com objetivos diferentes.

O Grande Oriente do Brasil nasceu para organizar a Maçonaria brasileira. O Apostolado, por sua vez, surgiu como uma instituição de natureza política e patriótica, destinada a fortalecer a Monarquia Constitucional, apoiar a consolidação da Independência e colaborar na construção das bases do novo Estado brasileiro, incluindo o processo constitucional.

Outro fato relevante é que Dom Pedro exercia a liderança das duas instituições. Era o Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil e também a principal autoridade do Apostolado. Parece pouco razoável afirmar que presidia, ao mesmo tempo, uma instituição e outra criada exclusivamente para destruí-la.

Os conflitos que marcaram aquele período existiram, mas estavam concentrados entre grupos políticos e não necessariamente entre as instituições. As divergências entre José Bonifácio, Gonçalves Ledo e outras lideranças refletiam diferentes visões sobre os rumos do Brasil recém-independente. Essas disputas acabaram sendo projetadas tanto sobre o Grande Oriente quanto sobre o Apostolado, levando muitos autores posteriores a atribuírem às instituições antagonismos que, na realidade, pertenciam aos seus membros.

Também merece reflexão o fato de que Dom Pedro determinou o fechamento das duas organizações. O Grande Oriente do Brasil foi fechado. O Apostolado também. Se fossem instituições essencialmente rivais, dificilmente teriam recebido exatamente o mesmo destino pelas mãos do mesmo governante.

Mais significativo ainda é o que ocorreu após a abdicação de Dom Pedro. O Grande Oriente do Brasil foi reorganizado sob a liderança de José Bonifácio, um dos fundadores do Apostolado. Esse fato demonstra que não existia incompatibilidade institucional entre ambos. Se houvesse uma oposição absoluta, seria contraditório que um dos principais líderes do Apostolado assumisse a reorganização da principal Potência Maçônica do país.

Isso não significa negar que tenham ocorrido perseguições, prisões ou disputas políticas naquele período. Esses acontecimentos são amplamente documentados. O que merece reflexão é a tendência de atribuir às instituições a responsabilidade por conflitos que nasceram das circunstâncias políticas e das divergências entre seus integrantes.

A história exige equilíbrio. Julgar acontecimentos de 1822 com os olhos do presente pode conduzir a conclusões simplificadas. Instituições permanecem; homens divergem, mudam de posição, fazem alianças e rompem acordos. Confundir esses planos pode levar a interpretações que não contemplam toda a complexidade dos fatos.

Talvez a maior lição daquele período seja compreender que tanto o Grande Oriente do Brasil quanto o Apostolado fizeram parte do mesmo esforço de construção da nacionalidade brasileira. Cada qual possuía sua finalidade, mas ambos reuniam homens que participaram ativamente da consolidação da Independência e da organização do Estado brasileiro.

A busca pela verdade histórica não se fortalece quando escolhe apenas os documentos que confirmam uma tese. Ela se fortalece quando considera o conjunto dos fatos, seus protagonistas e, sobretudo, o contexto em que ocorreram. Somente assim é possível compreender a história em toda a sua riqueza e complexidade.

Arlindo Batista Chapeta
Secretário-Geral de Comunicação do Grande Oriente do Brasil
Presidente da Academia Maçônica de Letras da Baixada Santista

Arlindo Chapeta

Arlindo Chapeta

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