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A Cultura do Cancelamento e a Tradição Maçônica da Tolerância

Arlindo Chapeta
A Cultura do Cancelamento e a Tradição Maçônica da Tolerância

A sociedade moderna caminha, cada vez mais, para o silenciamento e a exclusão daqueles que divergem do senso comum. Essa se tornou uma das maiores angústias do cidadão contemporâneo: o medo de ser julgado, cancelado ou banido do convívio social simplesmente por expressar uma opinião minoritária ou dissonante.

Em muitos ambientes, a liberdade de expressão virou uma ilusão que só se sustenta enquanto há unanimidade. Diante do contraditório, o diálogo é sumariamente substituído pela hostilidade, pela desqualificação e pelo afastamento.

Mas o que acontece quando as pessoas deixam de ouvir?

Quando fechamos os ouvidos ao outro, abrimos mão da compreensão. Perdemos a oportunidade preciosa de desenvolver a empatia, exercitar a tolerância e expandir nossa própria visão de mundo.

O maçom, por princípio, jamais deve abandonar a capacidade de ouvir. Em Loja, aprendemos que homens de diferentes origens, crenças, formações e convicções podem — e devem — compartilhar o mesmo espaço de convivência fraterna. Ouvir uma ideia que contraria nossos valores não nos corrompe; pelo contrário, permite-nos compreender melhor o ambiente que nos cerca e aperfeiçoar nossa própria percepção da realidade.

Escutar não significa concordar. Ouvir não significa aceitar. Mas compreender sempre será melhor do que ignorar.

Diante disso, cabe uma reflexão essencial: é possível existir liberdade sem tolerância?

A resposta é um não categórico. Nenhuma liberdade sobrevive onde a tolerância é escassa. O direito de falar se esvazia se não houver, do outro lado, a disposição de permitir que o próximo também se manifeste.

Existe um vínculo indissociável entre liberdade e respeito: a verdadeira liberdade não se resume a defender o próprio direito de fala, mas sim a proteger o direito daqueles que pensam de forma diametralmente oposta à nossa. Nossa liberdade se fortalece quando garantimos a liberdade do outro.

A Maçonaria compreendeu esse princípio há séculos.

Ao longo de sua história, a Ordem reuniu homens com as mais variadas visões políticas, religiosas, filosóficas e sociais. Em momentos cruciais da humanidade, maçons defenderam posições antagônicas sobre sistemas de governo, modelos econômicos e reformas sociais.

E como a instituição tratou essa diversidade?

Com debate, reflexão e o firme embate de ideias — mas sempre restritos ao campo do pensamento. A força da Maçonaria nunca residiu na uniformidade, mas sim em sua extraordinária capacidade de fazer com que visões divergentes coexistam em um ambiente pautado pelo respeito e pela fraternidade.

O contraste com os dias atuais é evidente:

A cultura do cancelamento busca silenciar; a tradição maçônica busca compreender.

O cancelamento afasta; a fraternidade aproxima.

O intolerante elimina o contraditório; o maçom entende que é justamente no encontro de ideias diferentes que o ser humano se aperfeiçoa.

Talvez a maior contribuição que a Maçonaria possa oferecer à sociedade contemporânea seja o exemplo prático de que é possível divergir com elegância e conviver com respeito.

Em tempos de polarização extrema e julgamentos sumários, precisamos urgentemente reaprender a ouvir, dialogar e refletir. Afinal, uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos pensam igual, mas aquela em que todos podem pensar livremente, sem o medo do banimento.

Fraternalmente,

Arlindo Batista Chapeta
Secretário Geral de Comunicação do Grande Oriente do Brasil

Arlindo Chapeta

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