A sociedade moderna caminha, cada vez mais, para o silenciamento e a exclusão daqueles que divergem do senso comum. Essa se tornou uma das maiores angústias do cidadão contemporâneo: o medo de ser julgado, cancelado ou banido do convívio social simplesmente por expressar uma opinião minoritária ou dissonante.
Em muitos ambientes, a liberdade de expressão virou uma ilusão que só se sustenta enquanto há unanimidade. Diante do contraditório, o diálogo é sumariamente substituído pela hostilidade, pela desqualificação e pelo afastamento.
Mas o que acontece quando as pessoas deixam de ouvir?
Quando fechamos os ouvidos ao outro, abrimos mão da compreensão. Perdemos a oportunidade preciosa de desenvolver a empatia, exercitar a tolerância e expandir nossa própria visão de mundo.
O maçom, por princípio, jamais deve abandonar a capacidade de ouvir. Em Loja, aprendemos que homens de diferentes origens, crenças, formações e convicções podem — e devem — compartilhar o mesmo espaço de convivência fraterna. Ouvir uma ideia que contraria nossos valores não nos corrompe; pelo contrário, permite-nos compreender melhor o ambiente que nos cerca e aperfeiçoar nossa própria percepção da realidade.
Escutar não significa concordar. Ouvir não significa aceitar. Mas compreender sempre será melhor do que ignorar.
Diante disso, cabe uma reflexão essencial: é possível existir liberdade sem tolerância?
A resposta é um não categórico. Nenhuma liberdade sobrevive onde a tolerância é escassa. O direito de falar se esvazia se não houver, do outro lado, a disposição de permitir que o próximo também se manifeste.
Existe um vínculo indissociável entre liberdade e respeito: a verdadeira liberdade não se resume a defender o próprio direito de fala, mas sim a proteger o direito daqueles que pensam de forma diametralmente oposta à nossa. Nossa liberdade se fortalece quando garantimos a liberdade do outro.
A Maçonaria compreendeu esse princípio há séculos.
Ao longo de sua história, a Ordem reuniu homens com as mais variadas visões políticas, religiosas, filosóficas e sociais. Em momentos cruciais da humanidade, maçons defenderam posições antagônicas sobre sistemas de governo, modelos econômicos e reformas sociais.
E como a instituição tratou essa diversidade?
Com debate, reflexão e o firme embate de ideias — mas sempre restritos ao campo do pensamento. A força da Maçonaria nunca residiu na uniformidade, mas sim em sua extraordinária capacidade de fazer com que visões divergentes coexistam em um ambiente pautado pelo respeito e pela fraternidade.
O contraste com os dias atuais é evidente:
A cultura do cancelamento busca silenciar; a tradição maçônica busca compreender.
O cancelamento afasta; a fraternidade aproxima.
O intolerante elimina o contraditório; o maçom entende que é justamente no encontro de ideias diferentes que o ser humano se aperfeiçoa.
Talvez a maior contribuição que a Maçonaria possa oferecer à sociedade contemporânea seja o exemplo prático de que é possível divergir com elegância e conviver com respeito.
Em tempos de polarização extrema e julgamentos sumários, precisamos urgentemente reaprender a ouvir, dialogar e refletir. Afinal, uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos pensam igual, mas aquela em que todos podem pensar livremente, sem o medo do banimento.
Fraternalmente,
Arlindo Batista Chapeta
Secretário Geral de Comunicação do Grande Oriente do Brasil