Em um mundo onde as relações humanas se tornam cada vez mais rápidas, intensas e superficiais, refletir sobre confiança, prudência e discrição tornou-se algo essencial. Muitas vezes acreditamos que convivência, simpatia ou afinidade são suficientes para garantir lealdade, porém a experiência da vida nos mostra que nem sempre aqueles que estão próximos caminham conosco pelos mesmos valores, intenções ou propósitos.
Muitas vezes, a sensação de proximidade e confiança faz com que baixemos naturalmente nossas defesas durante uma conversa. Nesse ambiente aparentemente seguro, acabamos revelando pensamentos, opiniões e informações sem perceber que nem todos possuem a mesma responsabilidade, discrição ou lealdade que imaginamos. E é justamente nesses momentos de excesso de espontaneidade que surgem exposições desnecessárias, interpretações equivocadas e até futuras decepções.
Uma forma de evitar esse excesso é desenvolver autocontrole comunicativo. Pensar antes de falar, avaliar o ambiente, compreender a necessidade da informação e refletir se aquilo que estamos prestes a dizer realmente precisa ser compartilhado. Nem toda afinidade representa confiança verdadeira, e nem toda proximidade significa lealdade permanente.
O filme Como Mágica apresenta essa reflexão de maneira simbólica através do peixe Boogie, personagem que conquista confiança, aproxima-se de forma amistosa e aparentemente sincera, mas que ao longo da história demonstra que nem todos caminham ao nosso lado pelos mesmos motivos. Talvez esteja justamente aí uma das maiores lições da vida, normalmente não somos feridos pelos inimigos declarados, mas por aqueles a quem permitimos entrar em nossa confiança.
A própria história reforça essa realidade. Dom Pedro I enfrentou forte desgaste político e oposição de grupos que anteriormente sustentavam sua liderança, sendo gradualmente isolado até sua abdicação. Já Dom Pedro II, mesmo após décadas de dedicação ao Brasil, viu a monarquia ruir através da articulação republicana de antigos aliados, militares e setores políticos que passaram a defender outros interesses. Em muitos momentos da humanidade, a ruptura da confiança não nasce da distância, mas da proximidade.
Na caminhada maçônica, essa reflexão possui profundo valor. A fraternidade é um dos pilares da Ordem, mas fraternidade não significa ingenuidade. O maçom aprende que prudência, discrição e equilíbrio emocional também são virtudes indispensáveis. Existem irmãos sinceros, leais e comprometidos com o bem coletivo, mas também existem pessoas movidas por vaidade, interesses pessoais, disputas e impulsos momentâneos.
Por isso, ouvir mais e falar menos, em muitos momentos, não é frieza nem desconfiança exagerada. É maturidade. O silêncio, quando acompanhado de discernimento, também é uma forma de sabedoria. A palavra tem força para construir pontes, fortalecer relações e unir pessoas, mas quando usada sem prudência pode abrir portas que jamais deveriam ter sido destrancadas.
“O homem prudente entende que nem todo silêncio é fraqueza; muitas vezes, ele é proteção, sabedoria e equilíbrio.”
Fraternalmente,
Arlindo Batista Chapeta
Secretário Geral de Comunicação do GOB
Presidente da Academia Maçônica de Letras da Baixada Santista